Antes de qualquer coisa, gostaria apresentar uma dúvida: quem se pega assistindo às catástrofes no noticiário, fica chateado ou nervoso, mas no dia seguinte segue a vida normalmente e não toma uma atitude sobre o que assistiu?

Mariana

Arquiteta Mariana Crego

Quem assiste aos intervalos comerciais de várias instituições pedindo por doações; quem recebe e-mails que solicitam nossa assinatura contra empresas que continuam destruindo ecossistemas ou ainda utilizam mão de obra escrava, mas nem doa e nem assina? Acredito que todos nós. Ou quase todos.

Ficamos comovidos, revoltados, mas após alguns minutos, já esquecemos. É como se sentíssemos que aquilo está tão distante, ou que nossa atitude seria tão ineficiente e incapaz de melhorar algo, que permanecemos inertes.

Por outro lado, quem já não participou de uma ação beneficente porque um amigo convidou, ou quem já não foi voluntário porque um parente o convenceu? Novamente acredito que quase todos nós. Mas como um convite de um amigo pode ser mais eficiente do que um discurso de um ídolo na televisão?

Porque funcionamos muito mais com o que afeta o que está perto de nós. A energia de alguém próximo nos toca muito mais e nos desperta o sentimento de que, sim, podemos fazer a diferença e realmente mudar algo para melhor.

E é assim as coisas podem funcionar na sustentabilidade. Fazer com que uma ação pequenina, compartilhada entre conhecidos, provoque um efeito imenso e se alastre de maneira extremamente eficiente. Um exemplo é o sucesso do uso de painéis solares na Alemanha, que começou quando um vizinho contou para o outro que iria utilizá-los.

Podemos observar isso na natureza e nas técnicas da agricultura. Hoje em dia, fala-se muito em método de plantio de agrofloresta, que é quando plantam uma série de itens juntos, ao invés de fazer uma monocultura.

Quando são podadas, as plantas sentem a necessidade de crescer. Essa “informação” chega à terra e passa de uma planta para outra. A troca de energia, na mesma sintonia em direção ao crescimento, faz com que cresçam mais rapidamente e mais harmonicamente do que quando há apenas uma espécie com um único tipo de informação. É o tal incentivo entre vizinhos.

E para chegar onde finalmente quero levá-los, descobri, ou melhor, redescobri o bambu para a arquitetura, em uma dessas conversas de podas. Como ele cresce rapidamente (a colheita chega a ser anual), é podado diversas vezes e gera muito resíduo para a terra quando se decompõe, auxiliando no crescimento das plantas que estiverem ao redor. Então pensei: se cresce tão rápido, não seria um ótimo candidato à material sustentável?

Sim! O mundo inteiro está de olho nessa matéria, já tão antiga, e que vem mostrando ser eficiente para produzir móveis, utensílios, ração de peixe, alimento – o broto é extremamente nutritivo e utilizado na China.

Além disso, pode substituir parte da areia no concreto, pois contém sílica, similar ao carvão, e é um material ideal para queima. A fibra também vem sendo utilizada nas indústrias automobilística e aeronáutica, em vidros, em têxteis, e pegando o lugar das estruturas de madeira na construção civil. Testes estão sendo realizados para que tome, inclusive, o lugar do ferro na armação de concreto.

No Brasil, há registros de plantio de bambu nesses últimos anos. Estamos avançando para alcançar os outros países. Conseguimos não só comprovar grande parte dos estudos, como estamos produzindo uma série desses itens. Melhor ainda: a matéria-prima pode ser industrializada. Ou seja, quem não gosta do aspecto do bambu, não precisa se preocupar, pois é possível que tenha aparência lisa, sem os nós.

Como vou comprovar que isso não é só um discurso distante e sim uma realidade? Coloquei-me a testar o bambu. E esse é o segredo: pesquisar, experimentar e dar espaço a novos materiais.

Contato:
Arquiteta Mariana Crego
http://marianacrego.com.br